Todo dia eu observo no que o mundo está se tornando. E não é preciso nem sair de casa, andar pela rua, sequer olhar pela janela. É só ligar a televisão e por toda parte mostram sempre a mesma coisa: violência.
Telejornais são completamente previsíveis. Mal ligo e já mostram: muitas quadrilhas, tantos mortos, tantas crianças sendo abusadas, e não só sexualmente. Criminalidade subiu tantos por cento em tal cidade, foi descoberta uma quadrilha que desviava milhões todo dia. Câmeras instaladas em tal parte da cidade revelam barbaridade praticada contra turistas. Ou então de repente alguém matou uma criança. Por olhômetro acho que cada telejornal tem pelo menos cerca de 85% de todas as notícias voltadas exclusivamente para crimes e violência.
Sempre pensei que a culpa era dos outros. Que era “alguém ai em algum lugar” que causava tudo isso. Hoje sei que não. Que esse “alguém ai em algum lugar” não existe. Certa vez li um texto, uma frase em especial que me fez pensar muito. “Ninguém ajuda as crianças com fome, os idosos do asilo ou os cães abandonados. Isso é muito fictício. O que existe, sim, são as crianças do orfanato XXX, os idosos do asilo XXX e os cães do abrigo XXX, que eu ajudo com quantia XX todo mês.” Não existem culpados da violência. Existem sim as pessoas que formarão – ou não – os futuros bandidos, assaltantes, seqüestradores, espancadores e afins. São as pessoas, eu, meu vizinho, o professor, o meu amigo, todos nós, daquele casebre no interior àquela mansão na beira da praia, do mendigo de rua àquela celebridade, que vamos formar – ou não – os futuros bandidos, assaltantes, seqüestradores, espancadores e afins
O que a máquina-de-enxurrar-tragédias nos mostra todo dia é o resultado do conjunto das ações que tomamos. Eu percebo nas pessoas – e em mim mesma - que sempre achamos que fazemos tudo certo, que a culpa é sempre dos outros. Esse é o pensamento mais ridículo que podemos ter. O modo como aquele seu filho rebelde, aquele cachorro agressivo te trata, é culpa de quem convive com ele. Uns tem mais ou menos culpa, mas todos têm uma parcela, seja pela suas atitudes, ou pela falta delas. Sei que erro, e erro muito, mas quando percebo onde posso melhorar, tento modificar as minhas atitudes para melhorar as dos outros. Claro que muitas vezes terceiros irão me impedir, mas sei que tentei, a partir de agora a atitude tem que vir de outro É impossível agir sozinho. Continuarei tentando, mas enquanto não me ajudarem, não vou poder ter sucesso. Às vezes queria falar onde está o erro dos outros, mas sei na pele que isso é muito difícil. As pessoas acreditam estar sempre certas, e tentar interferir no modo como tratam seus amigos, cães, e especialmente filhos é igualável a lhes dar um soco, lhes ofender profundamente. Revidam com frases como “Trato ele como ele EU quiser!”, “ O filho (amigo, cachorro) é MEU e faço com ele o que quiser!” ou ”Tá insinuando que não sei educar (ou agir com) meu filho (ou cachorro ou amigo)?”. É muito difícil admitir que estamos errados, eu sei, mas as vezes as pessoas deviam ser mais compreensivas.
Eu nunca havia percebido onde estavam os erros. Hoje eu percebo que está tudo tão irraizado, tão na nossa cultura, que nem percebemos quando somos ou não agressivos, e mais difícil ainda, que atitudes devemos tomar. Aquela mãe que diz que não bate, mais depois de insistir muito perde a paciência e dá um tapa, ensinou muita coisa errada. A começar, o principal, que você pode até insistir, mas não deu certo, use violência, ou seja, com violência tudo se resolve. Aquele pai que briga no trânsito por uma batidinha demonstra ao filho que qualquer coisa deve ser resolvida na violência – nem que seja verbal – pois violência resolve tudo. Um amigo que dá socos no amigo para se divertir ou comemorar algo, mostra que até em coisas nas quais violência é completamente desnecessária, nós podemos – e devemos – usar força. Alguém que ameaça bater numa criança para conseguir algo ensina a ela que quer se quer algo é só ameaçar. Uma pessoa que bate no cachorro por que ele pegou sua meia ensina que tudo deve se resolvido na violência, especialmente com quem é mais fraco que ele. Sei que quem olha pensa que não é nada, que “foi educado assim”, que “tem que se defender”, que “comemoração boa é assim”, que “criança tem que ter medo pra respeitar”, ou que “cachorro tem que aprender à base de porrada pra respeitar”, ou coisas do gênero, mas não. Isso influencia sim, e muito. Aquele filho que levou o tapa da mãe pode um dia dar um tapa no rosto de alguém porque foi contrariado, e ainda levar outro tapa por isso. Aquele filho que viu o pai brigando um dia pode se meter em uma briga de rua e sair muito ferido. Aquele amigo um dia pode dar um soco mais forte e os dois vão começar a brigar. Aquela criança no futuro pode ameaçar bater – ou matar, dependendo do caso – se alguém não fizer o que ele quer, e aquele cachorro, no dia que alguém pegasse seu osso preferido, poderia fazer como seu dono, resolver na porrada com que é mais fraco, e morder a esposa ou filho daquele dono. E engraçado que ele vai ser taxado de monstro e provavelmente surrado, quando não sacrificado. Quando comecei a perceber essas – e várias outras – situações, foi que percebi o quanto essa violência de todo dia é culpa de todos.
Eu compreendo a situação em que a maioria das pessoas se encontra. Não é culpa delas, o que fazem é o que aprenderam de seus pais, mães e amigos. E é isso que elas deviam mudar. Se os pais delas agiram de maneira agressiva e elas passaram isso adiante, o que fazer para acabar com a violência? Agir de maneira tranqüila e pacifica, pois conseqüentemente iria ensinar as pessoas ao seu redor a fazerem o mesmo. Iria evitar a formação dos bandidos, ladrões, assassinos e todos esses “maus elementos” que nos assolam hoje em dia. Eu freqüentemente aprendo coisas novas no fórum, li um livro espetacular (Don’t Shoot the Dog – Karen Pryor), me informo por diversos meios como agir melhor. Se as pessoas fizessem a mesma coisa, talvez um dia esse mundo fosse um mundo melhor, com menos violência tão perto de nós, e talvez as máquinas-de-enxurrar-tragédias um dia possam ser diferentes do que são hoje.
Sei que muitos acham que meu pensamento parece muito simples, perfeitinho e fácil, mas se as pessoas realmente acham que não vai fazer a diferença, deviam pensar na história do garoto que devolvia conchas ao mar, pois caso contrário ela acabariam morrendo. Disseram que ele estava fazendo um trabalho inútil, pois em pouco tempo a maré ia mudar e mais conchas iam voltar. E o que ele respondeu? “- Pode até ser, mas para essa – então ele jogou uma concha ao mar- eu fiz a diferença”. Pelo menos eu penso que cada pessoa ou bicho que eu trato de maneira gentil, eu faço a diferença. E essa pessoa pode tratar mais pessoas da maneira gentil, e essas pessoas farão o mesmo. Pensando bem, se uma atitude tão simples da minha parte pode mudar tanto esse mundo, então, porque não fazer? Quem sabe eu posso mudar – nem que seja um pouco – a situação atual em que vivemos. E isso já vale muito para mim.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
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